Pesquisa revela que atualmente, mais de 19 milhões de pessoas vivem em situação de Insegurança Alimentar Grave no Brasil. Ou seja, passam fome diariamente

 

“Quanto à fome, foram necessárias duas terríveis guerras mundiais e uma tremenda revolução social – a revolução russa – nas quais pereceram dezessete milhões de criaturas, dos quais doze milhões de fome, para que a civilização ocidental acordasse do seu cômodo sonho e se apercebesse de que a fome é uma realidade demasiado gritante e extensa, para ser tapada com uma peneira aos olhos do mundo”.

Assim, o recifense Josué de Castro, um dos principais ativistas no combate à fome no Brasil, destaca a invisibilidade do assunto no livro: “Geografia da Fome: o dilema brasileiro: pão ou aço”.

Causada por diversos fatores, como sociais e históricos, crescimento da taxa de desemprego, aumento da inflação e falta de políticas públicas pelo Governo Federal, a Insegurança Alimentar cresceu ainda mais durante a pandemia da Covid-19. Ou seja, há mais pessoas passando fome no País.

Cenário brasileiro

De acordo com o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19, desenvolvido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan), como parte do projeto VigiSAN, 55,2% (116,8 milhões de brasileiros) convivem com a insegurança alimentar e não têm acesso pleno e permanente a alimentos, um aumento de 54% com relação a 2018.

Desses, 43,4 milhões (20,5% da população) apresentam insegurança alimentar moderada ou grave e 19,1 milhões (9%) estão com insegurança alimentar grave e passam fome no seu dia a dia. A pesquisa foi realizada em 2020 e contemplou 2.180 domicílios nas cinco regiões do país, em áreas urbanas e rurais.

“A segurança ou a insegurança alimentar não é uma questão de causa única, é o que a gente chama de um problema complexo multifatorial. Os estudos de Josué de Castro, a própria literatura e as artes trazendo Raquel de Queiroz e Candido Portinari retrataram, ao longo da história do nosso País, a situação de exclusão social e fome de grande parcela da população. A fome é um fenômeno complexo e outros fatores menos visíveis e/ou abrangentes também pesam, mas essas questões da gestão econômica, social e o histórico secular de relações econômicas para/com e dentro da região pesam bastante nessa equação”, explicou a professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro da Rede Penssan, Fernanda Tavares.

Situação mais grave no Nordeste

No Nordeste, de acordo com a pesquisa realizada pela Rede Penssan, a situação se deu de forma ainda mais grave e o índice de Insegurança Alimentar ficou acima dos 70% na região. Já a Insegurança Alimentar grave (a fome) afeta 13,8% das casas do Nordeste, quase 7,7 milhões de pessoas sem ter o que comer diariamente.

Segundo a professora Fernanda Tavares, historicamente, o Nordeste é uma região mais vulnerável, que sempre teve um percentual de pobreza e extrema pobreza maior, principalmente nas áreas rurais.

“Os dados da Vigisan mostram que as áreas rurais, com ênfase nos agricultores familiares, são os mais afetados pela Insegurança Alimentar, em especial nas formas moderada e grave. Então junta o desmonte e cortes de recursos para programas importantes para a agricultura familiar nos últimos 5 anos, o que foi agravado na pandemia, com ênfase no PAA; uma seca superada mais recente que afetou muito a capacidade de produção deles entre 2010 e 2015, com riscos de novas secas; o histórico de baixo investimento na região e nas condições de convivência com o semiárido, uma alta proporção de desemprego também nas áreas urbanas, para onde muitos “fogem” tentando melhores condições de vida; e a inflação de alimentos básicos prolongada em que estamos”, destacou Fernanda.

 

Informações: Folha de Pernambuco